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Tu

O silêncio que fazes é o medo que sinto.
Quis compreender o que não se dizia:
O óbvio da tua evidência é apenas o tempo,
No qual escreves teu nome.
Tive que ser pequeno o suficiente para pensar-me grande,
E só então percebi que é na humildade do teu silêncio
Que fazes a glória do teu nome.
Numa obra grandiosa demonstraste toda tua sabedoria;
Eu, verme da terra, envergonhei-me de minhas tão arrogantes pretensões.
A solidão dos meus dias revelam meus anseios.
No amor tão grande, belo e puro é que resides:
No sentimento sem mácula é que transitas,
Na beleza harmônica de atos e obras é que descansas.
Eu, de muito a aprender de ti, careço:
Ainda pequeno sou,
Minha razão me cega,
Meu orgulho estanca meus passos.
Choro por não compreender o que dizes,
Dia e noite essa saudade oprime meu peito.
Minhas obras são nada, eu nada construí.
Não sei teu nome e nem onde resides,
E apenas o pressinto na perfeição das tuas obras.
Quem és tu? Onde estás?

Mostra-me minha mãe, pai e irmãos,
Vem, e me ensina o caminho:
E eu terei, das chagas
A cura
E só enfim serei outro.

Reativando...

Atendendo a pedidos (estranhos, estes!), estou reativando.
Bem vindo ao lar dos meus questionamentos mais profundos.
Não se espante.
Não se perca.

Ser ou não ser II

Se guardar, se perder
Se perder, se achar:
Sempre estar no lugar
Que você não está...

Se conter, se negar
Se querer, se matar:
Não seguir, não chegar
Não poder se encontrar...

Se entregar a incertezas de um coração
Sempre ouvindo conselhos, de amigos ou não:
E nenhum pensamento parece fluir,
Nem se sente à vontade de estar ali
Pensamentos, tristezas, e angústias sem fim...
Isso não tem que ser assim!

Quando ser ou não ser não é mais a questão
- Ou então, na ilusão - Se perder a razão
Se entregar ao momento, isso é outra ilusão
Solução? Pra questão?
Manter os pés no chão.

As pessoas, os espelhos e os labirintos

Não se procura. Não se busca.
Se caminha e se ama.
E, assim,
Se encontra, e se acha.

Deixa tu de ser o outro pra ti mesmo:
Só se perde em seu próprio labirinto,
Aquele que quis ser seu próprio espelho.

VITRIOL

Solvente Universal
Dissolva-me dentro de mim mesmo,
Para que, em essência
Descubra enfim o Ouro:
Sol no Chumbo
Da pedra bruta.

Questionamentos (2005)

Perguntar, perguntar, perguntar!
Haverá outro ofício que não este para a mente pensante,
Que não aceita o que lhe é oferecido,
Sem avaliar-lhe o cheiro, a textura, a cor?
E após isso, não quererá também lhe provar o sabor,
Ou não auferirá se emite algum som?

Questionar!

Se o ponto de interrogação é qual pedra no sapato
O questionar não é um fim em si:
É a busca por um algo, por uma inquieta resposta
Que teima em se ocultar por entre as frestas de tudo o que se revela
ao conhecer,
Um quê inalcançável, atraente e encantador,
Que dribla a razão simplesmente pelo fato de não poder ser apenas pensado,
Mas em conjunto absorvido sutilmente por outras formas de percepção.

Perguntar, questionar, buscar!
A busca também não é em si uma meta...
De que valeriam todos os devaneios e suposições de um capitão
Enquanto seu barco é fortemente atingido pelas ondas do mar?
Não valem mais suas ações???
E não é este pois o principal objeto de todas as reflexões?

O agir para ser, o saber para ser!

Se a morte é o ponto de interrogação por excelência,
Sejamos pois, inteiramente, o que somos!
Não é a isso que se chama integridade?

Neste momento existimos e sabemos que vivemos.
Não seria então mais adequado agir e lutar para chegarmos ao porto
vivos e mais fortes, tal qual o capitão,
Que ser uma vítima de quaisquer circunstâncias adversas?
Por acaso não nos é lícito vencer?
Acaso não devemos nós buscar a vitória?
E o que é a vitória senão resistir e até destruir as forças que tentam nos subjugar,
Resistir a todas as investidas da desgraça e da infelicidade,
Saber enxergar que tudo é transitório,
Mas que se permanecemos firmes e erguidos,
Autênticos e fiéis a nossa própria consciência,
Sem nada esperar que seja definitivo, e sim sustentável pela força da
nossa vontade
E convicção daquilo que realmente somos - mais ainda do que aquilo que
não nos permitimos ser! -
Aí então seremos realmente fortes, e algum sentido terá o nosso indagar,
Alguma utilidade terão nossos questionamentos.

Não creio que o perguntar, o questionar seja próprio de pessoas
temerosas e fracas.
A afirmação, a ousadia, a resistência, a força - a Ética!!! -
Estas são as características dos verdadeiros perguntadores
Aqueles que buscam o saber pelo ser,
E para os quais os momentos são vividos no presente,
Para os quais os atos são sementes conscientes da árvore que carregam.
E o tempo é uma sucessão de presentes contínuos:
Ora, se desejo um melhor futuro, basta-me utilizar-me desta nítida compreensão!
Saber que o tempo é um fluxo contínuo de atos, e que não deixa de
ocorrer nem mesmo enquanto dormimos:
É tolice sofrer e não agir, bem como é tolice sofrer pelo que passou,
(Pois o tempo em que sofremos por aquilo que não podemos mudar,
Quando não se torna degrau para uma compreensão do não querer sofrer,
Não passa de tempo perdido,
Algumas pás de terra a mais no buraco onde os covardes procuram
enterrar a sua consciência).

Viver é ser, e não fugir do não-ser:
Sendo, já se escapa do vácuo do medo.

Fugindo, apenas se evita a dor, mas nada daí se obtém além de mediocridade.

Agir pela consciência própria: e nenhum reconhecimento externo esperar,
Que já não tenha havido em nós mesmos.

Há os prudentes felizes, mas que não têm reservas:
Uma desgraça lhes abala o espírito, que consegue evitar, mas não reagir.

Ser é ser, antes de tudo, forte, constituído, inteiro e alegre em
todas as suas forças:
Dono de si mesmo.

Questionar, questionar, questionar:

Que a resposta de todos os nossos questionamentos,
Sejam aquilo que nos tornemos, de fato.

A Corrida (2006)

Corro, com a alma muda,
Em algum lugar de um imenso deserto,
Vago, no silêncio de um angustiante desespero,
Há mãos, e dedos, e gritos, e bocas
Tentando obter de mim um algo que ainda não possuo

Todo a dor se tornou culpa, e toda a culpa se tornou ódio
E todo o ódio se tornou cadeado para as portas e janelas
Toda as mágoas viraram hematomas incuráveis
E todo o grito preso continua preso

Salve-me!

O tempo traz um sol que se ergue diante de mim
E todas as nuvens se dissipam, abrindo um céu claro
O desespero não acaba, mas a alma se aquece
E da areia de um imensamente vasto sertão
Se ergue seco o espírito do tempo

Deus? - Pergunto eu.

Deus? - Pergunta ele.

Salve-me! - Grito eu.

Salve-me! - Implora ele.

Idiota!!! - Trovoa através de minha boca a explosão ocorrida em meu peito,
o último grito de afirmação da alma.

Um sorriso em seu rosto de areia me confirma o aprendizado,
E ele volta ao pó, assim como eu, um dia.

Mas agora estou vivo. Insanamente vivo.

Relâmpago de fôlego me atravessa.

E agora quem sorri sou eu.

Corro adiante por sobre a realidade,
Por dentro dela, por dentro de mim.
Meu sangue ferve, meu coração pulsa,
Qual estrela louca de amores por existir,
Cintilando no seio sagrado de toda esta brutalidade hostil,
Alimentando com a luz da consciência
Essa fome de ser.

O que é isso?

Eu!

Ahahahahah!

Isso sou eu!

Continuo a correr.
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